Foto: Vaticano News (Divulgação)
Dom Leomar Brustolin encontra pessoalmente o Papa Leão XIV já no novo pontificado, durante o Jubileu dos Catequistas, em Roma.
O ano de 2025 foi marcante para a história da Igreja Católica. Com a morte de Jorge Mario Bergoglio, Papa Francisco, aos 88 anos, em abril daquele ano, encerrou-se um pontificado de 12 anos e 39 dias marcado por um estilo pastoral próximo à comunidade e de fidelidade radical ao Evangelho. O falecimento de Francisco também abriu um período de luto, reflexão e discernimento, culminando na eleição do novo pontífice, o Papa Leão XIV, em maio.
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Em entrevista ao Diário, o arcebispo metropolitano de Santa Maria, dom Leomar Antônio Brustolin, falou sobre o legado de Papa Francisco. Foi o Santo Padre que nomeou o religioso para a Arquidiocese de Santa Maria em 2021. Recentemente, Dom Leomar também encontrou pessoalmente o Papa Leão XIV já no novo pontificado, durante o Jubileu dos Catequistas, em Roma. Na reportagem, ele avalia o legado de Francisco, as expectativas com Leão XIV e o significado desses encontros para sua vida e ministério.
O legado do Papa Francisco
Para dom Leomar, o Papa Francisco deixa um legado profundamente evangélico, marcado mais pelos gestos do que pelos discursos. Segundo ele, Francisco ajudou a Igreja a recordar aquilo que jamais deveria esquecer: o Evangelho como experiência viva de encontro com Jesus Cristo.
– Ele recolocou no centro a Igreja como Povo de Deus em caminho, chamada à conversão pastoral, à misericórdia, à escuta e à coragem – afirma o arcebispo.
Dom Leomar destaca que Francisco insistiu que a Igreja não existe para si mesma, mas para evangelizar, o que exige decisões concretas, nem sempre compreendidas pela maioria. O arcebispo recorda uma frase forte dirigida por Francisco aos bispos brasileiros: "Não tenham medo de tomar decisões difíceis.”Para ele, a afirmação nunca foi um convite à dureza, mas à coragem pastoral e à liberdade interior para servir ao Evangelho acima de interesses pessoais, medos ou comodismos.
Outro pilar central do pontificado de Francisco, segundo Dom Leomar, foi a sinodalidade, palavra traduzida do grego como "caminhar juntos".
– Ele ajudou a Igreja a compreender que autoridade se vive como serviço e que o pastor deve ter ‘cheiro de ovelha’, isto é, proximidade real com o povo – destacou o arcebispo, ressaltando a valorização da escuta, do discernimento comunitário e da corresponsabilidade.
Nomeação e encontros com Francisco
Dom Leomar Antônio Brustolin foi nomeado arcebispo de Santa Maria pelo Papa Francisco em 2 de junho de 2021, quando atuava como bispo auxiliar de Porto Alegre. A posse ocorreu em 15 de agosto daquele ano, no Santuário Basílica Nossa Senhora Medianeira, data simbólica para a Diocese e também para o próprio arcebispo.
O primeiro encontro pessoal entre dom Leomar e Francisco aconteceu em 2015, quando foi nomeado bispo auxiliar. O diálogo, segundo ele, foi marcado pela simplicidade e pelo bom humor do Papa, que chegou a brincar sobre o frio de Porto Alegre. Em outra ocasião, diante das dificuldades da evangelização no Brasil, Francisco foi direto e encorajador: “Vai avante, caminha, vai dar certo”.

Já como arcebispo, dom Leomar voltou a encontrar o Papa Francisco em maio de 2022, durante a visita Ad Limina Apostolorum, no Vaticano. Esse encontro é uma peregrinação que bispos de todo o mundo fazem a Roma a cada cinco anos, visitando os túmulos dos apóstolos Pedro e Paulo, reunindo-se com o Papa para apresentar relatórios sobre suas dioceses, receber orientações e fortalecer a comunhão com a Igreja de Roma e a Santa Sé.

– Ele se mostrou um homem muito aberto, respondeu a todas as perguntas com lucidez, profundidade e uma unção própria de santidade – relatou dom Leomar.
O arcebispo destacou ainda o conhecimento que Francisco demonstrava sobre a realidade da Igreja no Rio Grande do Sul. Para a Arquidiocese de Santa Maria, o legado de Francisco também teve um marco concreto: em 2024, o Papa autorizou a proclamação de Nossa Senhora Medianeira como Rainha do Povo Gaúcho, atendendo a um pedido entregue pessoalmente por Dom Leomar.
Com a morte de Francisco, em abril de 2025, dom Leomar presidiu uma missa em homenagem ao Papa na Catedral Metropolitana de Santa Maria, reunindo grande número de fiéis. Na homilia, destacou a coragem, a fidelidade ao Evangelho e a esperança deixadas pelo pontífice.

A eleição de Leão XIV e as expectativas
A eleição do Papa Leão XIV, no conclave realizado em maio de 2025, foi vivida por Dom Leomar como um momento de profunda densidade espiritual.
– Não se trata apenas de uma transição, mas de um ato de fé da Igreja, que acredita que o Espírito Santo continua a conduzi-la na história – afirmou.
Para o arcebispo, o conclave não busca um gestor ou estrategista, mas um pastor capaz de confirmar os irmãos na fé, guardar a unidade e conduzir o Povo de Deus diante dos desafios do tempo presente. Dom Leomar avalia que Leão XIV tem aprofundado caminhos já indicados por Francisco. Na exortação Dilexit Te, o novo Papa sustenta que o amor aos pobres não é um tema periférico, mas critério essencial de fidelidade ao Evangelho.
– Os pobres não são apenas destinatários da ação da Igreja, mas verdadeiros mestres da fé – destacou.
Essa reflexão se conecta à carta Fidelidade que gera futuro, na qual Leão XIV afirma que não há futuro para a Igreja sem uma formação sacerdotal sólida, integral e permanente.
– Uma formação não apenas acadêmica, mas espiritual, humana e pastoral, capaz de formar presbíteros com coração de pastores – explicou Dom Leomar.
Segundo ele, amar os pobres e formar bem os pastores são dimensões inseparáveis da fidelidade a Cristo e orientam diretamente sua missão à frente da Arquidiocese de Santa Maria.
Encontro com Leão XIV e a catequese
Em setembro de 2025, durante o Jubileu dos Catequistas, Dom Leomar se encontrou pessoalmente com o Papa Leão XIV, a quem já conhecia desde 2022, quando ainda era o cardeal Robert Prevost. Na ocasião, entregou-lhe um livro de sua autoria sobre Nossa Senhora de Guadalupe.
– Disse que ele talvez não tivesse tempo para ler, e ele respondeu: "Pelo contrário, quero ler, sim", e começou a folheá-lo ali mesmo – recordou o arcebispo.

Dom Leomar descreve Leão XIV como um homem sereno, prudente e profundamente espiritual, marcado pela tradição agostiniana. Durante um diálogo dirigido aos catequistas, o novo Papa destacou que a iniciação cristã não consiste na transmissão de conteúdos, mas na introdução a uma vida nova em Cristo.
– Sem encontro com Cristo não há verdadeira catequese, e o catequista é, antes de tudo, testemunha – afirmou o arcebispo, ressaltando que essa visão confirma o caminho assumido pela Igreja no Brasil, com uma catequese de inspiração catecumenal, narrativa e mistagógica.
Continuidade, comunhão e esperança
Para Dom Leomar Brustolin, ter convivido com dois pontificados distintos, mas profundamente ligados pela fidelidade ao Evangelho, reforça a certeza de que a Igreja caminha em continuidade. Francisco deixa um legado de humanidade, misericórdia e coragem pastoral; Leão XIV dá seguimento a essa missão, conduzindo a Igreja em um mundo em constante transformação, com esperança, fidelidade e abertura à ação do Espírito Santo.